Diana recebeu uma carta. Achou estranho. Muito estranho. Em seus 20 anos de vida nunca recebera cartas, pelos menos não inesperadas, como desta vez. A carta não tinha remetente, nem assinatura, ou referência alguma de quem a enviara. Apenas uma folha de caderno, um pouco amassada, com diversas marcas de lápis. As rebarbas pareciam ter sido arrancadas com aquela técnica de dobrar o papel e friccioná-lo até estar pronto para ser "rasgado". A folha estava dentro de um envelope branco. "Será que é mesmo para mim?", se perguntou. Colocou-se a pensar. Provavelmente a carta não tinha vindo do correio. Não tinha selo, nem endereço. Hesitante, decidiu ler o conteúdo da carta.

"Tentei escrever alguma coisa que te impressionasse, mas nada que eu pudesse dizer poderia expressar a intensidade e a simplicidade do que sinto. Sinto sua falta e queria conversar. 
Se tiver interesse, dentro de dois dias coloque sua resposta num envelope vermelho e deixe no mesmo lugar que encontrou essa. Preciso que suas palavras sejam honestas. Prometo que as minhas o são e sempre serão."

"Definitivamente não é pra mim", pensou. Não tinha ideia do que fazer. Tinha certeza que se tratava de um engano. Nunca havia se envolvido com alguém que poderia ter motivos para escrever tais palavras. Além de tudo, a carta não mencionava ao menos seu nome. Desceu até a portaria do prédio.

- Com licença Seu Alcides, sabe quem deixou essa carta aqui? - perguntou ao porteiro.
- Olha menina, eu não sei não. Acho que entregaram isso no turno do Luis. Se você quiser eu pergunto pra ele.
Diana ficou um pouco desapontada.
- É que deixaram lá na minha porta, mas eu acho que é engano.
- Então, eu não sei, mas pergunta pra Lívia. De repente é pra ela.
- Pode ser... obrigada Seu Alcides.
- Magina menina, se eu souber de alguma coisa te comunico.

Diana pegou o elevador e voltou para seu apartamento. Ligou a TV. Mudava de canal compulsivamente. Estava inquieta. Não por curiosidade, mas pelo mal entendido. Alguém havia escrito uma carta, que mesmo com poucas palavras, pareciam sinceras. Talvez o verdadeiro destinatário estivesse esperando por ela. E a pessoa que a enviou, provavelmente agora estaria aguardando uma resposta. Um programa de culinária chamara sua atenção. Diana era apaixonada por programas de culinária - cozinhar era um de seus hobbies favoritos, talvez mais do que isso, uma espécie de terapia-, assistia todos os que o seu tempo livre lhe permitia. Apenas isso poderia distraí-la naquele momento. Por algumas horas, conseguira esquecer o assunto e esperar Lívia, sua prima e colega de quarto, chegar.

As duas estavam morando juntas há pouco mais de 6 meses, saíram de Marília para tentar algo na capital de São Paulo. Lívia sonhava em ser atriz e conseguiu uma vaga num curso de Artes Cênicas numa ótima universidade pública, no período da manhã. Passava suas tardes trabalhando como vendedora numa loja de roupas, num shopping perto de onde moravam. Chegava em casa pouco antes da meia-noite.
Diana não sabia o que queria. Apenas topou o desafio de recomeçar, afinal, não tinha nada a perder. Não tinha capacidade de passar numa universidade pública, nunca fora estudiosa como Lívia, e mesmo que fosse, não teria ideia do que fazer. Tinha certeza que mudaria de curso a cada semestre, por isso, preferia não fazer nada enquanto não tivesse certeza. Até lá, estava parcialmente satisfeita trabalhando com telemarketing e recebendo mensalmente um salário mínimo de seus pais. Para ela, não precisava de muito mais do que isso.
Diana e Lívia deram sorte de não precisarem pagar aluguel. O pai de Lívia herdara o pequeno imóvel de 50 m² de sua falecida mãe, que havia morado lá até o fim de seus dias. Dona Sônia, que já era mãe solteira, deixou os três filhos em numa pequena cidade do interior de São Paulo com sua irmã, para ser bailarina profissional. Só esperou o mais novo desmamar e partiu sem pensar duas vezes. Sabia que o único lugar em que conseguiria algo a mais era na Capital. Os visitava uma vez a cada quatro meses, quando não estava em turnê pelo país e as vezes na virada do ano. E assim foi durante décadas.
Quando Lívia nasceu, Dona Sônia foi correndo para o interior, conhecer sua segunda "neta mulher", ainda mais sendo do filho mais velho. Só de olhar para Lívia, ela já sabia que a pequena seria uma artista. Ao passar dos anos, isso só fora se confirmando.
Lívia era uma menina engraçadíssima e muito carismática. Desinibida, aos 4 anos de idade já fazia shows para a família. Cantava e dançava, dava cambalhotas, fazia caras e bocas. "O orgulho da vó". 
Diana, quase dois anos mais velha, era mais reservada, introvertida, aparentemente sem muitos encantos. Filha de Pedro, o primogênito de Dona Sônia, que claramente não via muito talento na primeira neta, e fazia questão de diminuí-la elogiando efusivamente "a artista da família". Para a avó, Lívia era um grande talento, tinha um grande futuro. Diana era apenas... Diana.
Dona Sônia havia pedido para seu filho deixar a menina prodígio ir morar com ela na capital, mas o pedido era sempre negado. "A menina não tem futuro aqui", dizia. A mãe de Lívia, que morria de ciúmes da sogra por ser tão apegada à menina, não podia nem sonhar que a tal tinha essa pretensão. Lívia cresceu sonhando em ir para São Paulo, fazer filmes, viajar pelo Brasil inteiro fazendo espetáculos, tal qual sua avó. Os dias mais felizes para Lívia, eram quando iam a São Paulo visitar a avó, mais ou menos uma vez a cada dois anos. 
No dia em que Dona Sônia faleceu, vítima de câncer, seu último pedido a seu filho e sua nora, era que deixassem a menina ir estudar e tentar a vida na capital, assim que completasse 18 anos, pois já estaria madura. "A menina não tem futuro lá". Era tudo o que Lívia queria. Era quase uma questão de honra, agora que sua avó os havia deixado.
Depois de muito relutar, seus pais cederam ao desejo da avó e da neta. Faltavam apenas 2 anos para que a aspirante a atriz chegasse à maioridade, tempo o suficiente para que tudo fosse minimamente planejado.
Com medo de que a filha viajasse e morasse sozinha, os pais de Lívia imploraram para que os pais de Diana a deixassem ir junto, "de repente ela se encontra". As duas sempre foram muito amigas, apesar de diferentes. Diana, insegura, não era muito dada a mudanças e desafios, mas por amor a sua prima, decidiu entrar na luta pela permissão dos pais, que acabaram concedendo...

Comentários

Tati disse…
Vai ter continuação??? Pfv!!!!
Karina Furtado disse…
Ainda não sei, haha. Depende da inspiração :)

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